Os animais iguassuenses não cooperam ou concorrem naturalmente. Não há geneticista social ou documentário do Animal Planet que me convença do egoísmo ou do altruísmo iguassuense. No habitat do animal iguassuense, essa região de "povos e culturas na mais harmônica das existências", não existem leis e regras que sejam "naturais".
Tudo o que aqui se vê, foi e é arbitrário, fruto de uma escolha: alheias escolhas, políticas escolhas, ideológicas escolhas - de governos, de instituições, de pessoas.
Da construção da Itaipu a das aduanas, da abertura comercial paraguaia ao nacionalismo econômico brasileiro, das políticas públicas de segurança aos investimentos em programas sociais, tudo é decisão. Do ânimo para protestos, para cobranças, para a desobediência civil, tudo é posição.
E não é que na terra da "harmonia universal" encontramos a campeã brasileira de assassinatos entre jovens? A quinta em número total de assassinatos no Brasil? E não é que na terra da tolerância cultural encontramos a cidade mais violenta do Paraguai?
Mas afinal, o que os povos e as culturas devem a violência regional que se origina do tráfico e do contrabando, estes "elementos alienígenas"? E o que o turismo deve, ao ponto de associá-lo a pobreza dos habitantes de nossas cidades? Não são as quedas "obras da natureza"? E as fronteiras que nos separam, não são "naturais"?
Afinal, não são leis, mas do que físicas fronteiras, as reais causas de nossa separação? E as concessões públicas para exploração de "patrimônios
naturais da
humanidade", não são decisões humanas, assim como os títulos que as lauream?
ExotismoOs publicitários da República dos Hoteleiros querem nos tornar peça funcional da globalização turística, parte integrante do circuito internacional, querem nos transformar num objeto de exotismo cultural-natural-espiritualista, pronto para o consumo, promovendo aqui uma pretensa benevolência universal de povos e religiões, "terra da tolerância e da compreensão", insinuando que aqui se concretizaria certa familiaridade perdida - as melhores virtudes humanas.
Ora, se os consumidores soubessem o quanto essa construção é falsa, parcial, talvez não viessem. Não há como desassociar todos os elementos que sobre nós se abatem.
Os membros da República dos Hoteleiros ignoram a história. A baixa carga tributária paraguaia atraiu os imigrantes, donos de quase a totalidade das lojas de Ciudad de Este, criando ressentimento entre os paraguaios. O comércio de Ciudad del Este se aproveitou da mão de obra dos ex-funcionários da Itaipu, e filhos dos ex-funcionários, assim como os criminosos, que os convocariam. Um dia, o governo brasileiro e a industria nacional se cansaram dessa história: começou a repressão alfandegária.
A partir daí toda a criminalidade regional ganharia como bode expiatório o tráfico e o contrabando, esquecendo de tudo aquilo que os tornaram possíveis - assim como a tentativa, por parte dos governos e da imprensa, em torná-los frutos de uma mesma essência criminosa, ignorando origens distintas para problemas diversos e que, se bem analisados, resultariam em importantes desdobramentos políticos e tributários.
Neste mesmo período se inicia a profissionalização do setor turístico da região, e a exploração da imagem de diversidade - oriunda justamente dos imigrantes atraídos pelo potencial do comércio. Por fim, até o governo brasileiro tentaria instrumentalizar geopoliticamente a romantizada imagem criada da região.
E não é que tudo
concorre para isso? Prédios turisticamente capitalizáveis, campus de universidades de
integração.
Minha vida, minhas circunstânciasE já que a partir delas minhas próprias se fazem possíveis, diga-me, Circunstâncias, já que você me criou, ensina-me a viver. Ensina-me a não mais depender de Ciudad del Este, do contrabando e da informalidade, sem que, para isso, tenha que vender a minha escrita a República dos Hoteleiros, minha consciência a generosa Itaipu ou que tenha que comprar uma arma para matar aqueles que criaram você, Circunstâncias.
Ensina-me, canalha, só não me venha com essa história de que a força para as mudanças encontram-se aqui, no meu "interior". Não cite exemplos de indivíduos de sucesso para justificar um oceano de pobreza.
Calma! Se não posso me reduzir aquilo que me torna único, a uma
coisa-em-si, tampouco posso me reduzir a você, Circunstâncias, negando uma visível autonomia de movimentos, uma unidade psico-física, mesmo que temporal. Afinal, a retórica das circunstâncias é tão comum para justificar o ato de um criminoso como o esforço individual o é para justificar a riqueza dos favorecidos. Sou essa tensão, não a dialética entre posições antagônicas, mas a própria tensão, e ela me deixa bravo.
Afinal, quem é que paga pra gente ficar assim?
Contudo, o ódio torna tudo muito claro. Ele simplifica o real, torna o complexo previsível, revela-o nos contornos de uma classe, nos gestos e nas palavras de alguns indivíduos. Mil vezes "se fazer" de porta-voz da Fronteira do que ser a própria voz da República dos Hoteleiros.
Fábio DondoniBlog Notícias Unila